quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Boneca de pano



Essa é a historia de uma boneca, uma boneca de pano, dessas que raramente vimos hoje em dia em meio a tantas outras, tão glamourosas, que falam, andam e que custam os olhos da cara. Ela é diferente, ela é apenas uma boneca, nem tão velha, mas também não muito nova e que já teve alguns donos. Quando foi comprada ela possuía um vestido vermelho, botinhas de florzinhas e os cabelos cor de mel, olhos azuis e o seu rosto estampava um sorriso de boneca feliz. Sua primeira dona foi Alice, uma menininha órfã que vivia com os avós no campo, ela lhe foi dada como presente de seu terceiro aniversário, seus avós a compraram porque a acharam linda e ela não custava muito caro já que eles não tinham condições pra mais do que isso. Mas isso não importa Alice se apaixonou pela boneca do mesmo jeito, criança é bom por isso, não precisa de muito e desde que se apeguem a algo, aquilo se torna a coisa mais importante de suas vidas. Alice dormia e acordava com ela todos os dias, a levava onde quer que fosse, pra cima e pra baixo, aonde ia a arrastava, brincou tanto, mas tanto que seu vestidinho rasgou, foi aí que ela ganhou seu primeiro remendo, sua avó pegou uns trapos velhos que tinha guardado, e tapou o imenso rasgo no vestido da boneca, nem por isso Alice passou a gostar menos dela. Mas Alice cresceu e um belo dia a boneca foi dada a uma criança carente da região, carente em todos os sentidos da palavra.
Nesse segundo lar a boneca passou por mals bocados, Lucinha vivia com dois irmãos mais velhos, uma mãe que sofria de um câncer em estágio avançado e um pai alcoólatra, que batia muito nos três, mas Lucinha adorava a boneca e quando sentia medo se agarrava a ela com toda força segurando-a com suas mãozinhas inocentes e rezando pra que ele parasse com aquilo, pra que ele dormisse logo e tudo ficasse em silêncio de novo, e quando isso acontecia, ela podiam finalmente brincar, e fazia em silêncio pra que a mãe pudesse descansar e o pai não acordasse e começasse tudo de novo, a gritaria, a quebração de coisas e todas aquelas palavras feias, que ela não entendia muito bem, mas que pela feição do pai sabia que não eram boas palavras, coisa que ela também não conhecia muito bem, palavras bonitas... Mas um dia num ataque de fúria seu pai a arrancou dos braços com toda força e com isso rasgou mais um pedacinho da sua roupa, e foi aí que ela ganhou outro remendo. Lucinha rasgou uma de suas blusas e ela mesma costurou meio desajeitada, afinal ela era só uma criança de seis anos, mas fez, ponto por ponto. A essa altura a boneca já possuía dois remendos, um de cada cor, seu rostinho já não era o mesmo, estava sujo pelo tempo e os olhos azuis já nem eram tão azuis como antes, estavam desbotados, sem brilho.
Então um dia Lucinha foi pra escola, e nunca mais voltou pra casa, o motivo ela não sabe, mas de certa forma ela se sentiu aliviada em ir morar num lugar onde tinha um monte de crianças de sua idade, e brinquedos diferentes e tinha até comida em vários horários, e quando perguntava sobre sua família sempre respondiam que eles estavam no céu, resposta que ela só foi entender o significado muito mais tarde. Lucinha partiu e a boneca continuou lá, naquele lugar cheio de crianças, que a pegavam, apertavam, rabiscavam, pisoteavam e a amavam também, a boneca fez muitas crianças felizes, muitas mesmo. E foi nesse mesmo lugar que ela ganhou todos os seus outros remendos, e no seu vestido, o vermelho de antes já era impossível de se ver, era só um monte de tecidos de vários formatos e tamanhos presos com linhas multi coloridas.
A boneca sentiu todas as alegrias que causou as crianças, e ficava feliz por ter feito, mas ela também sentiu todas as tristezas no qual presenciou, e muitas vezes tudo que ela queria era ter um coração batendo, mas depois percebeu que era melhor ser só uma boneca cheia de remendos, remendos esses que o tempo causou e que desfez sua forma original, cada cor do vestido representava histórias tristes e alegres, e no fundo ela sabia que jamais poderia ser a mesma de antes, jamais poderia ter o vestidinho vermelho e os olhos azuis brilhantes de anos atrás, e que aquela sujeirinha no seu rosto jamais sairia, ela nunca voltaria a ser mesma depois de tantos remendos, mas o que importava, ela sabia que era só uma boneca de pano.
[Fernanda Padulli]

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